Fascismo na Itália

A conturbada situação italiana no começo do século XX

Embora tenha passado por um complexo processo de unificação territorial (ver Unificação da Itália) entre 1815 e 1870, a Itália não passou por uma verdadeira integração econômica e social. Na virada do século XIX para o XX, com os problemas econômicos e a desigualdade social que grassavam no país, milhares de habitantes começaram a emigrar para as Américas a fim de tentar escapar à condição de miséria de sua terra natal. Para piorar a situação, a partir de 1915 a Itália entra na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o que acaba gerando uma crise ainda maior. Apesar de ter combatido ao lado dos países vencedores da batalha, o Estado italiano não conseguiu obter vantagens territoriais a partir da guerra. Diante de mais de 600 mil mortos, do aumento do endividamento, da inflação e do desemprego, a instabilidade política começa a ganhar espaço cada vez maior no Estado, propiciando o terreno favorável para a emergência do Fascismo.

O nascimento do Partido Fascista

Em 1914, Benito Mussolini (1883-1945) - um militante do Partido Socialista italiano - decide romper com seu histórico socialista e acaba fundando, em 1919, o movimento fascista. O termo "fascismo" não tem uma definição muito precisa, uma vez que faz referência a feixes (fáscios) que constituíam um símbolo da autoridade política no período republicano da Roma Antiga - um machado formado por hastes de madeira unidas por uma corda. Contudo, o que merece ser destacado é que a palavra "fascismo" passou a designar todo tipo de movimento autoritário que seja de direita e lance mão da violência política. Isso, devido ao modo como o próprio regime fascista mantinha o poder: através da repressão e da criação de uma milícia que perseguia os opositores e controlava a máquina estatal. Cabe observar, porém, que o fascismo não é apenas um regime totalitário, mas também radicalmente nacionalista. Em meio aos tumultos do pós-guerra, do receio perante o comunismo e do sentimento de que as instituições e hierarquias sociais italianas não eram sólidas o suficiente para enfrentar a crise, o Partido Nacional Fascista (1921) passa a angariar forte apoio da classe média e da burguesia italiana. Assim, já em 1922, Mussolini apresentava uma força política bem organizada, que contava com o suporte de industriais e de proprietários de terra avessos ao socialismo e descrentes em relação ao liberalismo.

A marcha para Roma: a caminho do poder

Chamados de camisas-negras, os militantes fascistas organizam, em outubro de 1922, a chamada Marcha sobre Roma, que consistiu em um movimento destinado a forçar o rei Vítor Emanuel III a entregar o poder ao Partido Fascista. Tratava-se de um golpe que visava criar uma espécie de guerra psicológica entre os membros da cúpula do Estado, agravando a tensão política e pressionando o rei a chamar Mussolini para compor o ministério do país. Nessa época, a Itália era uma monarquia parlamentarista, de modo que o líder fascista foi tomando o poder aos poucos, inicialmente mantendo as aparências de uma não-interferência total nos rumos do governo. Ou seja, o fascismo não instaurou de imediato uma ditadura. Somente de forma gradual, entre os anos de 1922 e 1924, é que Mussolini introduziu algumas práticas políticas totalitárias no governo italiano. Para estabelecer o Estado antidemocrático e totalitário - isto é, baseado na centralização na figura do Duce (líder fascista) -, Mussolini primeiramente foi conquistando aos poucos as elites sociais e econômicas do país.

A partir de 1925, de fato, é que a ditadura fascista começa a se afirmar. E com a consolidação do Estado autoritário e policial fascista, o poder legislativo do Parlamento desaparece, as eleições municipais são suspensas, o regime passa a ter um único partido, o Estado se torna antiliberal, antissocialista, etc.

A consolidação do Estado fascista

Para que o regime fascista angariasse ainda mais o apoio das massas, Mussolini investiu em acordos com a Igreja católica, fortalecendo as relações entre o Estado e o papado. A fim de que entendamos por que isso ocorreu, é preciso destacar que a sociedade italiana era marcada por uma fragmentação cultural, de modo que a única tradição cultural capaz de unificar a nação era a religião católica. Assim, para a consolidação do Estado totalitário foi necessário construir a imagem do Fascismo como sendo uma espécie de "religião política". É nesse sentido que o Duce estabelece um acordo com o papa Pio XI. Acordo, este, a partir do qual se coloca um ponto final na ruptura que havia ocorrido entre a Igreja e o governo italiano na época da unificação do país. O Tratado de Latrão, assinado em 1929, sancionava o reconhecimento mútuo entre a Itália e a Santa Sé, além de reconhecer o Vaticano como um território soberano. E, mais importante: esse tratado declarava o catolicismo como a única religião do Estado, fazendo com que o governo não fosse mais laico.

Dessa forma, o fascismo foi se fortalecendo a partir do princípio de doutrinar os indivíduos, envolvendo-os no regime a partir de sua ideologia e neutralizando suas reivindicações de classe. É essa a lógica presente, também, na esfera do trabalho durante a época do fascismo. Isso, porque, através do corporativismo, o Estado passaria a ser o juiz dos conflitos trabalhistas. Ou seja, em tese, o Estado deveria arbitrar as relações entre patrões e empregados através de corporações, isto é, de associações de pessoas sujeitas a um mesmo estatuto definido pelo governo.

A ideologia fascista

Alguns historiadores argumentam que, na realidade prática, o corporativismo não teria tido tanta eficácia na Itália de Mussolini. Ou seja, esse sistema não teria oferecido verdadeiras soluções para os problemas sociais e econômicos italianos. Contudo, o corporativismo teve uma importância considerável no sentido de entusiasmar a sociedade a apoiar o governo, sobretudo dentre os meios estudantis e intelectuais. Apelando à ideia da integração nacional, o fascismo queria dar um novo sentido de participação e protagonismo aos italianos, atraindo a massa para a adesão ao Duce e aos mitos nacionalistas por ele propagados. Dessa forma, segundo a ideologia fascista o indivíduo seria uma fração do Estado, devendo contribuir para o crescimento e para a glória da nação italiana. O ideal difundido pelo fascismo – que era muito mais um mito do que a representação da realidade do país – era o de que deveria nascer um “homem novo” na Itália, isto é, um homem que fosse um “cidadão - soldado”, totalmente dedicado ao Estado e à ética do “crer, obedecer, combater”. Ou seja, o fascismo era associado a um discurso militarista muito forte, o qual acabaria levando o país à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e ao posterior descrédito de Mussolini perante a população, assolada pela catástrofe gerada pela batalha.

Bibliografia
  • FELICE, Renzo de; GENTILE, Emilio. A Itália de Mussolini e a origem do Fascismo. São Paulo: Ícone, 1988.
  • PALLA, Marco. A Itália Fascista: século XX. São Paulo: Editora Ática, 1996.

Larissa Guedes Tokunaga

História - USP

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