Guerra do Vietnã

A Guerra do Vietnã foi um conflito militar em larga escala, e sobretudo uma manifestação da Guerra Fria. Nominalmente, as nações beligerantes eram o Vietnã do Norte, com capital em Hanoi, e o Vietnã do Sul, sediado em Saigon, mas na prática o conflito polarizou o "Mundo Bipolar", e o Norte recebeu apoio do Bloco Comunista, enquanto o Sul era apoiado pelo mundo capitalista.

Antecedentes da Guerra do Vietnã

O Vietnã, juntamente com o Laos e partes do Camboja, formavam, desde o séc. XIX, a colônia francesa da Indochina. Embora tivesse existido desde a década de 1853, a colônia só foi finalmente pacificada em 1893, e mesmo com a pacificação ainda existiam fortes movimentos de resistência à ocupação francesa, forçados à clandestinidade.

Com a perda sofrida pela França nas mãos da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, o recém estabelecido governo de Vichy passou a administrar as possessões coloniais francesas. Portanto, quando o Japão, uma das potências centrais do Eixo, cobiçou a Indochina, as autoridades francesas colaboraram com os japoneses, ajudaram na invasão do país e concordaram com um governo de autoridade mista. Os Estados Unidos reagiram financiando o Viet Minh, uma milícia comunista influenciada pela União Soviética (na época um membro dos Aliados) para resistir à ocupação japonesa.

Após o final da Segunda Guerra, os Franceses procuraram reestabelecer seu domínio sobre as colônias, frequentemente com resultados desastrosos. O Viet Minh, com a polarização das influências comunista e capitalista, passou de aliado à inimigo, e enfrentou as forças coloniais francesas até sua derrota definitiva na batalha de Dien Bien Phu. Os franceses em sua evacuação da colônia dividiram o Vietnã em duas partes, Norte e Sul, sobretudo para conduzir uma transição pós-colonial que estabelecesse uma nação capitalista que combatesse a influência do Viet Minh, que ameaçava dominar toda a ex-colônia.

Foram realizadas eleições (amplamente consideradas fraudulentas) no Sul, que elegeram o presidente Ngo Diem, fervoroso católico e anti-comunista. Enquanto isso, os comunistas infiltravam o Sul com milícias, que incitavam o povo contra o novo governo, que paradoxalmente colaborava com sua própria impopularidade, tomando medidas como dedicar o país ao culto da Virgem Maria (num país cuja esmagadora maioria da população era Budista).

Finalmente, diante da rápida escalada de impopularidade do novo governo e da ameaça de uma total dominação comunista com apoio da população, o mundo capitalista resolveu intervir militarmente, e à eles se seguiram também intervenções por parte do bloco comunista, iniciando o conflito.

A Guerra (1961-1963)

A fase inicial do conflito, durante o mandato do presidente americano John F. Kennedy, consistiu em ações sutis, centradas nos objetivos de impedir a vitória do comunismo e ao mesmo tempo poupar vidas americanas e a imagem do país. Para tanto, os Estados Unidos mandaram agentes da CIA e das Forças Especiais para treinar tribos no interior em táticas de guerrilha para resistir ao Viet Minh, e o envio de militares graduados para treinar e aconselhar o governo do Sul, além de assessores diplomáticos e de relações públicas para tentar "ganhar os corações e mentes" dos sul-vietnamitas, e atenuar a situação de impopularidade do governo de Ngo Diem.

A presidência de Diem, provou-se desastrosa. Ele baniu grande parte das manifestações religiosas Budistas, muitas vezes utilizando-se de força letal, o que enfureceu a população, e ainda por cima nomeava seus oficiais militares de acordo com os critérios de lealdade e de pertencimento ao catolicismo, pouco se importando para fatores como competência, o que causou a derrota das forças vietnamitas em praticamente todas as batalhas desse período, mesmo naquelas em que contavam com vasta superioridade numérica. Então os oficiais mais competentes do governo sulista deram um golpe em Diem com o consentimento tácito dos oficiais americanos, e ele foi preso e executado logo depois.

A Guerra (1963-1969)

Com a morte do Presidente Kennedy, assume seu vice, Lyndon B. Johnson, que posteriormente é eleito para seu próprio mandato. A presidência de Johnson é caracterizada por uma disposição a intervir diretamente no conflito no Vietnã, e isso se manifesta inicialmente pela instalação de bases aéreas americanas em solo vietnamita, que também seriam usadas para combater as aeronaves norte-vietnamitas, mas sobretudo para apoiar as tropas terrestres, com constantes bombardeios de bases e comboios. A responsabilidade pela proteção dessas bases caberia aos oficiais do Sul, assim como a de conduzir a campanha em terra.

Essa política durou pouco mais de 2 anos, pois em meados de 1965 constatou-se que as forças sul-vietnamitas não tinham condições materiais ou táticas para vencer a campanha terrestre, e tampouco para proteger as bases aéreas dos ataques do Viet Minh, que progressivamente aumentavam sua frequência e o prejuízo em materiais e homens para o governo norte-americano. Diante disso, Lyndon Johnson resolveu autorizar a intervenção maciça e decisiva na guerra, enviando quantas tropas e armamentos fossem necessários para garantirem uma vitória sobre os comunistas. Essa intervenção começou com o emprego de 3,500 tropas de fuzileiros navais para defender as principais bases americanas, e esse número foi constantemente aumentando até chegar a 200,000 em dezembro daquele ano, conforme as tropas americanas, praticamente destreinadas para uma guerra defensiva, foram perdendo homens em emboscadas, ou para doenças e deserções.

Enquanto isso, o exército sulista perdia ainda mais batalhas, e o Viet Minh avançava perigosamente perto de Saigon. Diante disso, os Estados Unidos finalmente autorizaram uma guerra sem restrições, e empregaram um número maciço de tropas conscritas em território americano. Além disso, a Austrália, a Nova Zelândia, a Coréia do Sul e a Tailândia contribuíram tropas para o conflito, enquanto do lado comunista, a China contribuiu tropas, a União Soviética inteligência e material bélico, e Cuba oficiais militares e médicos.

Em 1967, os americanos e os norte-vietnamitas se enfrentaram na chamada Ofensiva Tet, a maior da guerra. O Viet Minh atacou com forças infiltradas praticamente todas as cidades do sul, incluindo Saigon, onde se situavam a embaixada e o comando central das forças norte-americanas. Inicialmente pegos de surpresa, o exército americano logo reagiu, e usou todo o poder de fogo de que dispunha para derrotar os exércitos do norte. Ainda que a ofensiva tenha sido teoricamente um sucesso tático para os Estados Unidos e seus aliados, na prática foi a derrocada estratégica final, pois o custo enorme em vidas americanas e o prejuízo para o país acabaram com a carreira do presidente Johnson, que recusou-se a candidatar-se à reeleição, dando lugar ao presidente Richard Nixon.

Nixon e a Retirada Norte-Americana

A partir de 1970, o presidente Richard Nixon foi forçado, diante do opinião popular, a retirar cada vez mais tropas americanas da guerra, enquanto os exércitos norte-vietnamitas extendiam o escopo de suas ações, e invadiam também o Laos e o Camboja, ajudando a instaurar regimes comunistas nesses países, e os Estados Unidos, ainda que tentassem intervir, pouco podiam fazer com a retirada constante de pessoal e material bélico, e o medo de causar um escândalo em sua terra natal com uma grande ofensiva.

Por mais que tentassem enviar ajuda material e pessoal para fortalecer o exército do Vietnã do Sul, o governo norte-americano começou a perceber que se tratava de um caso perdido. Negociações de paz foram então iniciadas, enquanto o presidente Nixon se preparava para uma última evacuação geral do pessoal americano. A última grande ação militar americana foi o enorme bombardeio que destruiu praticamente toda a capacidade industrial do Norte, para forçar a paz. O governo norte-vietnamita concordou, e em 1972 foi assinada a Concordata de Paris, e no ano seguinte foram evacuados o restante das tropas americanas e de representantes civis e diplomáticos. O presidente Nixon se recusou porém a autorizar a evacuação de dezenas de milhares de militares e servidores civis que foram leais ao regime sulista e aos norte-americanos, e temiam que o norte varresse o sul numa ofensiva quando os americanos estivessem fora do conflito.

Isso veio a acontecer menos de dois anos depois, em 1975, levando ao massacre de todos os cidadãos leais ao sul e ao estabelecimento firme e definitivo de regimes comunistas na região da Indochina. A Guerra do Vietnã entrou para a história como um dos mais infames e sangrentos conflitos do pós-Segunda Guerra, com atrocidades e crimes de guerra praticados continuamente de ambos os lados, com os Estados Unidos empregando indiscriminadamente o Napalm, o Agente Laranja e bombardeios em massa que mataram dezenas de milhares de civis, e os exércitos comunistas empregando táticas de terror para forçar uma rendição do sul, como o desmembramento, a tortura, o uso de lança-chamas que incendiavam aldeias inteiras, entre outros. Finalmente, a Guerra do Vietnã foi também um marco para o surgimento da contra-cultura norte-americana nos anos de 1960, que tinha como uma de suas principais bandeiras o pacificismo e o questionamente da perda de milhares de vidas norte-americanas nas selvas do sudeste asiático.

Bibliografia
  • BERMAN, Larry. Lyndon Johnson’s War.

Pedro Padovani

História - USP

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