Unificação da Alemanha

O processo tardio de unificação: semelhanças com o caso italiano

De modo semelhante à formação da Itália, o processo de unificação alemão também foi tardio, realizando-se no século XIX. Além disso, o Congresso de Viena (1815) - realizado no final das Guerras Napoleônicas para redefinir o mapa dos Estados europeus - também interferiu na formação da Alemanha, assim como ocorreu no caso italiano (ver Unificação da Itália). Ou seja, o intervencionismo de outros países da Europa no fragmentado território alemão também contribuiu, à semelhança da Itália, para que se iniciasse um movimento interno em prol da unificação desse Estado. No Congresso de Viena, decidiu-se que os quase quarenta estados germânicos que antigamente formavam o Sacro Império Romano-Germânico - extinto em 1806 por Napoleão Bonaparte - deveriam formar a Confederação Germânica, liderada pela Áustria. Se no caso da Itália o processo de unificação foi levado a cabo, sobretudo, pelo reino de Piemonte-Sardenha, no caso germânico pode-se dizer que o reino da Prússia liderou esse movimento de formação de um Estado alemão. Inflamada pela atmosfera nacionalista que atinge a Europa nessa época, a população da Confederação Germânica iria protestar contra a dominação monárquica da Áustria.

O desenvolvimento econômico da região germânica

Os pequenos estados germânicos, embora fossem marcados por essa divisão entre si, mantinham uma característica em comum: estavam passando por um crescente processo de industrialização, em grande medida influenciado pelos avanços realizados pelos ingleses a partir da Revolução Industrial. Entre 1860 e 1870, surgiriam distritos industriais e centros urbanos em várias regiões da futura Alemanha, bem como várias estradas de ferro que ajudariam a unificar o território. Em 1834, já como prenúncio dos anseios de constituição de um Estado unificado que somasse os poderios econômicos das regiões e se tornasse uma grande potência industrial, é criado o Zollverein, uma liga aduaneira liderada pela Prússia. Esse acordo unificava o mercado consumidor de vários territórios germânicos.

Bismarck contra a Dinamarca e a Áustria

Em 1861, o rei Guilherme I, da Prússia, nomeia Otto Von Bismarck como ministro, um político diplomaticamente habilidoso, monarquista, e favorável à unificação alemã. Para Bismarck, esse processo de constituição da Alemanha deveria ser liderado pelos prussianos. Controlando um poderoso exército e estabelecendo ora alianças, ora ataques a potências rivais, Bismarck venceria uma série de guerras até conseguir unificar a Alemanha. A primeira dessas batalhas ocorreu contra a Dinamarca, pois esta dominava dois ducados - o de Schleswig e o de Holstein - que, ao lutarem para obter a independência, estabeleceram uma aliança com o governo prussiano, o qual resolveu apoiar os príncipes desses territórios. A Áustria, que entrou nessa mesma guerra, estava aliada aos prussianos contra a Dinamarca, pois se tratava de uma questão que dizia respeito à Confederação. Ao final da batalha, Schleswig passou para o domínio da Prússia, enquanto Holstein ficou sob o comando da Áustria.

Após essa guerra, a Áustria e Prússia, que administravam os ducados conquistados, entram em conflito devido a esses territórios. Valendo-se de uma estratégia, Bismarck espera o momento propício para declarar guerra à Áustria, que na época estava em conflito contra a Hungria e a Itália. Assim, enfraquecidos, os austríacos perdem para a Prússia na batalha de Sadowa, em 1866. Derrotada, a Áustria aceita a concessão dos ducados de Schleswig e Holstein para a Prússia, bem como a passagem da Veneza para a Itália, a qual também estava se unificando e foi apoiada pelos prussianos nesse processo. Finalmente, após vencer a Áustria, a Prússia consegue a dissolução da Confederação Germânica. Em seguida, outros estados germânicos se uniriam aos prussianos, constituindo, em 1867, a Confederação Germânica do Norte.

A guerra Franco-Prussiana

Nomeado chanceler federal, Bismarck ainda iria enfrentar a França, que se sentiu ameaçada perante a expansão prussiana e o fortalecimento de seu poderio. Napoleão III exigiria, então, que os estados germânicos do sul - de quem ele esperava apoio pelo fato de a França sempre ter tido influência sobre a região - não aderissem à Confederação Germânica do Norte. Após esta e outra série de exigências não cumpridas, o dirigente francês declararia, em 1870, guerra à Prússia.

Contudo, como o exército prussiano se mostraria mais bem preparado, e, além disso, os franceses ainda teriam de enfrentar uma revolta política interna, Napoleão III acabaria capitulando no ano seguinte. Ao cumprir o tratado de paz com a Prússia, a França se comprometeria a ceder os territórios da Alsácia e Lorena à Prússia, bem como a pagar uma alta indenização aos vitoriosos.

A consolidação da unificação

O processo de unificação alemã se encerrou, oficialmente, em janeiro de 1871, quando, através de um ato simbólico e bastante humilhante para a França derrotada, os prussianos proclamaram o início do Segundo Reich (que significa “Segundo Império germânico”) em pleno espaço do palácio de Versalhes, sede do governo francês. Devemos lembrar que isso iria ter sérias consequências futuras, haja vista que os franceses derrotados alimentariam um significativo espírito de revanche contra os alemães.

Guilherme I seria, então, coroado como o primeiro Kaiser (imperador) da Alemanha unificada. Apesar disso, ainda haveria certas resistências regionais à formação do Estado, como a do território da Baviera. Isso mostra como esse processo foi, de fato, extremamente demorado e complexo.

Exercícios sobre a Unificação Alemã

  • (PUC-RS) Em 1871, alterava-se profundamente o quadro geopolítico europeu com a conclusão do processo de unificação da Alemanha sob hegemonia prussiana e a criação do “Segundo Reich”. É correto afirmar que um componente político fundamental da estratégia prussiana de unificação foi o [militarismo|republicanismo|nacional-socialismo], tendo como base social decisiva a(os) [aristocracia fundiária|alta burguesia|operários fabris].

(UFRS) A Unificação Alemã, habilmente arquitetada por Otto Von Bismarck, realizou-se em torno de guerras bem-sucedidas contra potências vizinhas.

Assinale a alternativa correta em relação às motivações e aos acontecimentos que desencadearam esse processo de unificação.

  • A fragmentação política obstaculizava o pleno desenvolvimento comercial e industrial da região. A unificação promoveria um mercado ágil e ampliado, com condições de enfrentar a concorrência inglesa através da proteção governamental. x
  • b) A unificação foi liderada pela Áustria, o mais poderoso dos Estados germânicos e sucessora do extinto Sacro-Império, capaz de eliminar as pretensões da Prússia. Aliado da França, o país austríaco contou com o seu apoio para vencer as resistências germânicas do sul.
  • A constituição, redigida por Bismarck, inaugurou uma era democrática nos estados alemães, sob influência dos ideais da Revolução Francesa, baseados na soberania e na participação popular.
  • As decisões do Congresso de Viena, ao reconhecerem o direito de independência da Alemanha, foram fundamentais para a consolidação da unificação, pois inibiram as pretensões italianas aos territórios do sul da Alemanha.
  • O processo de unificação alemã contou com o apoio da França, que, acossada pela supremacia britânica, via no novo Estado um importante aliado na corrida imperialista.

(MACKENZIE) A unificação política da Alemanha (1870-1871) teve como consequências:

  • a ruptura do equilíbrio europeu, o revanchismo francês, a revolução industrial alemã e política de alianças. x
  • enfraquecimento da Alemanha e miséria de grande parte dos habitantes do sul, responsável pela onda migratória do final do século XIX.
  • a anexação da Alsácia e Lorena, o empobrecimento do Zollverein e retração do capitalismo.
  • corrida colonial, revanchismo francês, o enfraquecimento do Reich e anexação da Áustria.
  • o equilíbrio europeu, a aliança com a França, a formação da união aduaneira e a Liga dos Três Imperadores.
Bibliografia
  • ZIERER, Otto. Pequena história das grandes nações: Alemanha. São Paulo: Círculo dos Livros, 1978.

Larissa Guedes Tokunaga

História - USP

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