Luteranismo

O Luteranismo foi a mais famosa corrente doutrinária do cristianismo no contexto da chamada “Reforma Protestante”. A vertente originou-se no antigo Sacro Império Romano-Germânico, atual Alemanha, no século XVI, tendo sido idealizada pelo monge católico Martinho Lutero, a partir de suas “Noventa e Cinco Teses”.

Lutero e as Noventa e Cinco Teses

Martinho Lutero foi um monge alemão, nascido no então Eleitorado da Saxônia, parte integrante do Sacro Império Romano-Germânico. Martinho Lutero dedicou-se inicialmente ao estudo dos evangelhos, de modo a tentar aproximar mais a teologia e as práticas católicas daquelas descritas expressamente nas escrituras. Enquanto atuava como monge e prelado local, Lutero teve seu primeiro contato com a “Venda de Indulgências”, prática que consistia no comércio do perdão divino nas Igrejas Católicas, com tabelas de preços que dependiam da gravidade do pecado e das posses do pecador. Essa prática foi introduzida com o objetivo de aumentar o capital da Igreja, que na época, além de manter seus membros mais graduados numa vida de luxo, também sustentava muitas vezes propriedades, cidades e exército, além da construção de catedrais e monumentos.

A resposta de Lutero foram as chamadas Noventa e Cinco Teses, que foram inicialmente concebidas como uma carta ao arcebispo de Mainz, Alberto, criticando esse tipo de prática, assim como seu estilo de vida ostentoso e as práticas degeneradas da Igreja. Alberto desconsiderou a carta, que foi posteriormente pregada na Igreja da paróquia de Lutero, e deu origem ao movimento Luterano.

A Guerra Esmalcáldica

A Reforma Luterana popularizou-se entre diversos governantes dos muitos feudos, principados e eleitorados do Sacro Império, à revelia de seus governantes, os católicos Habsburgos. O Imperador Carlos V baniu a disseminação e prática dos ensinamentos de Lutero com a Dieta de Worms de 1521, o que causou um rebuliço entre muitos de seus súditos, que consideravam-se no direito de discordarem teológicamente e adotarem uma nova interpretação da religião cristã, e assim fundaram a Liga da Esmalcalda para defender seus interesses.

Após voltar de uma guerra na Itália, o Imperador começou a juntar tropas com a ajuda do papa e de um nobre luterano, o duque Maurício da Saxônia. Os demais nobres da Liga decidiram atacar preventivamente antes que Carlos V conseguisse reunir todas as suas tropas e aliados, e assim estourou a Guerra Esmacáldica. O Imperador acabou vencendo a guerra, e, com isso publicou o “Ínterim de Auguesburgo”, que dizia que os protestantes deveriam se preparar para uma reintegração ao seio da Igreja Católica. Isso causou profunda revolta até em seu aliado, Maurício da Saxônia, causando uma nova guerra, dessa vez apoiada pelo rei Henrique II da França. O Imperador foi forçado a render-se, reconhecer a religião protestante, e abdicar do trono em favor de seu irmão Ferdinando I. A partir daí o Luteranismo ganhou força e se espalhou pela Europa, consolidando-se sobretudo nos territórios germânicos e escandinavos.

Doutrina e Influências

No cerne da doutrina Luterana estão os três princípios Sola Gratia, Sola Fide e Solus Christus, em Latim “Só pela Graça”, “Só pela Fé” e “Só através de Cristo”. Isso significa que o ser humano só é salvo e preparado para a vida eterna através da graça, isto é, vontade divina, só é alvo dessa graça através da fé, e só é redimido não por seus próprios méritos, mas sim pelos de Cristo, que sofreu justamente para oferecer essa redenção aos homens.

Os Luteranos também acreditam que o Batismo é independente da idade, e pode ser praticado como profissão de fé na vida adulta; e não acreditam no arrebatamento, isto é, no reino de Jesus na terra, mas somente na resurreição dos mortos no Juízo Final, e também não acreditam, ao contrário dos Calvinistas, que um indivíduo pode ser escolhido por Deus para ser predestinado ou especial, assim como previamente condenado.

Luteranismo Atualmente

O Luteranismo, além de ser a denominação cristã predominante em muitos países da Europa do norte, incluindo Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia, continua crescendo em muitos países, sobretudo na África, enquanto encolhe sob a pressão de outras denominações protestantes na América do Sul, em especial o caso dos Evangélicos no Brasil, esses mesmos frutos indiretos dos trabalhos de Lutero, pai do Protestantismo.

Pedro Padovani

História - USP

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