Guerra do Contestado

A Guerra do Contestado foi um conflito armado entre a população de posseiros e pequenos agricultores que viviam na divisa dos atuais estados do Paraná e Santa Catarina, e o exército brasileiro. A guerra teve ainda um importante conteúdo religioso, na forma de um líder messiânico, José Maria de Santo Agostinho.

Causas da Guerra do Contestado

As causas da Guerra do Contestado são muitas e complexas, originando-se principalmente na intevenção na economia e na distribuição de terras locais por parte dos poderes federais, freqüentemente a serviço do empresariado internacional. Este atuava na figura do norte-americano Percival Farquhar, que possuía diversos projetos na região, como a Southern Brazil Lumber & Colonization Company, mais tarde conhecida simplesmente como Lumber, e a Brazil Railway Company, que comprou a Companhia de Estradas de Ferro São Paulo-Rio Grande, com o objetivo de construir o que ficou conhecido como a Ferrovia do Contestado, que transportaria a madeira extraída pela Lumber até São Paulo, para embarcá-la posteriormente em Santos para exportação. As causas propriamente então, se dividem em três principais categorias: As causas econômicas, sociais e religiosas.

Causas Econômicas

As causas econômicas foram principalmente causadas por duas interferências governamentais: A primeira deu-se na forma das concessões de terras disputadas e ricas em recursos naturais à Santa Catarina, o que provocou muitas revoltas locais, como a Demétrio Ramos em Timbó e Aleixo Gonçalves Lima em Canoinhas, e a desapropriação maciça de mais de 6.000km² de terras de pequenos agricultores locais para a construção da Ferrovia do Contestado, e as subseqüentes tentativas de desalojamento forçado dos posseiros locais.

Causas Sociais

As causas sociais, em parte conseqüência das intervenções mencionadas acima, são a profunda desconfiança no governo, que só intervia de modo prejudicial na região, em nome de grandes financistas e especuladores, e o conseqüente surgimento de movimentos pró-monarquia.

Causas Religiosas

E as causas religiosas são os movimentos messiânicos, que mais tarde culminaram na fundação do Contestado, uma comunidade de "monarquias celestes", cada uma com seus reis e ordens de cavaleiros. Os três principais movimentos, incluindo o último e mais importante, foram liderados por monges de mesmo nome: O primeiro, que presumivelmente se chamava realmente José Maria, parece ter sido um monge italiano que pregava pela região e atraiu diversos seguidores, que faziam incursões itinerantes pela região do Contestado. O segundo, que se chamava Atanas Marcaf, de origem síria, mudou seu nome para José Maria de modo a continuar a missão do primeiro, e era vista como uma espécie de reencarnação do falecido. Este, antes de desaparecer em 1908, prometeu que voltaria ressuscitado.

Finalmente surgiu um terceiro, um soldado desertor de nome Miguel Lucena de Boaventura, que adotou o nome de José Maria, e instalou-se como curandeiro na região, logo adquirindo fama de santo milagroso. Este último é que acabaria liderando a rebelião.

O Conflito

No ano de 1912, quando as tropas federais marcham sobre o Contestado para "acalmar os ânimos" sob ordens do então líder da República, o marechal Hermes da Fonseca, José Maria lidera seus fiéis para organizar uma resistência em Irani, terra contestada por ambos os estados, Paraná e Santa Catarina. O governo decide mandar as Forças de Segurança do Paraná, espécie de polícia, para desalojar os rebeldes, mas são rechaçadas com pesadas baixas, e os rebeldes obtém sua primeira vitória. Contudo, José Maria morre na batalha, e é enterrado por seus fiéis, que prometem que ele ressuscitará juntamente com o mítico rei de Portugal, D. Sebastião, a frente de seu "exército encantado".

Em fevereiro de 1914, o governo federal envia um contigente do exército, composto de 700 homens, armados de fuzis, metralhadoras e canhões, para por fim a rebelião. Os fiéis do Contestado, contudo, se refugiam na comunidade remota de Caraguatá, onde juntam 6.000 homens em armas sob o comando de Maria Rosa, apelidado de a "Joana D’Arc" do sertão, uma adolescente de 15 anos que dizia receber visões e ordens do falecido José Maria. O exército contava também com um "Imperador", um "Quadro de Santos", que serviam como conselheiros, e uma guarda de elite de 24 Cavaleiros, intitulados "Pares de França", em alusão à guarda de Carlos Magno.

As tropas cercam Caraguatá, mas na batalha que se segue os federais são massacrados, e fogem para todos os lados, perseguidos pelos rebeldes. Os rebeldes então, atraem ainda mais seguidores, e fundam as "monarquias celestes", redutos fortificados, de Bom Sossego e São Sebastião, publicando também um manifesto oficial, denominado "Manifesto Monarquista". Desses redutos partiam para atacar fazendas, de modo a conseguir comida, cartórios, para queimar os registros de desapropriação, e as serrarias e escritórios da Lumber, de modo a sabotar os planos econômicos federais.

O governo reage mandando Carlos Frederico de Mesquita, que havia participado na repressão a revolta de Canudos, para acabar com a revolta. O general faz um ataque rápido e decisivo contra o reduto de Santo Antônio, obrigando os revoltosos a fugir, e, quando o reduto de Caraguatá é abandonado devido à uma epidemia de tifo, o general dá a revolta por encerrada e volta para a casa. Os rebeldes, liderados por Maria Rosa, se reagrupam no reduto de Santa Maria, e de lá lançam novos ataques à região. O governo então parte para a última cartada: envia o marechal Setembrino de Carvalho com 7000 homens, e ordens de pacificar a região e proteger a construção da ferrovia à qualquer custo. Com ajuda de dois aviões de reconhecimento, recentes aquisições das forças armadas, o marechal, evitando o conflito direto com os revoltosos, foi cercando a região a partir dos quatro pontos cardeais, e assim matando lentamente os revoltosos de fome.

Apesar da crise de fome, os rebeldes resistem, concentrados em dois redutos: O de Santa Maria e o de Caçador. Em março de 1915 o capitão Tertuliano Potyguara, após matar a líder Maria Rosa numa emboscada, avança sobre os dois redutos, e mata os rebeldes restantes em um combate sangrento, envolvendo todos os habitantes dos redutos, homens, mulheres e crianças, quase todos mortos de fome.

Conseqüências da Guerra do Contestado

As principais consequências da revolta foram duas: A assinatura do Acordo de Limites Paraná-Santa-Catarina, que acaba com a questão das terras de posse duvidosa. Mas isso gera uma segunda consequência, outra nova revolta dos habitantes de caráter messiânico, liderados por outro religioso, denominado Jesus Nazareno, que dura de 1916 à 1917.

Bibliografia
  • FRAGA, Nilson César. Contestado: A Grande Guerra Civil Brasileira.

Pedro Padovani

História - USP

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