Anarquismo

O Anarquismo é um nome genérico para uma série de escolas de pensamento sócio-político, que, apesar de citarem precedentes filosóficos recuados até os pensadores da China antiga ou da Grécia Clássica, surgiu como pensamento moderno, e adquiriu esse nome, durante a Revolução Francesa, mas ganharia alcance internacional com a Comuna de Paris de 1871.

Princípios Teóricos do Anarquismo

Embora a palavra Anarquismo (do grego "sem governo ou autoridade estabelecida") seja apenas um termo genérico para as centenas de movimentos e dezenas de escolas de pensamento sobre o assunto, existem alguns princípios teóricos comuns que dão coesão à esta categoria.

O primeiro princípio é o "anti-estatismo", ou seja, o princípio de que o Estado, por definição, é um mecanismo de opressão social e individual, e portanto, deve ser abolido. Como extensão disso, a maioria das escolas anarquistas (embora existam exceções), sobretudo nos dias de hoje, defendem também um segundo princípio, o "anti-autoritarismo", ou seja, o fim de qualquer opressão social que pode ou não derivar de mecanismos estatais, como o machismo, o racismo e a homofobia ou mesmo qualquer forma de organização hierarquizada, como empresas, grupos de trabalho, a maioria das religiões, etc. A ênfase é na liberdade do indivíduo para perseguir suas necessidades e aspirações, trabalhando apenas de modo voluntário.

A Comuna de Paris

A Comuna de Paris foi uma espécie de comunidade revolucionária auto-governada, que durou pouco mais de 3 meses, e se formou após o abandono, pelas tropas francesas, da capital ao perder a guerra Franco-Prussiana.

Uma das mais importantes facções da Comuna foram os Proudhonistas, adeptos das teorias de Pierre-Joseph Proudhon, que advogavam a propriedade e o uso comum de todos os meios de produção, de forma a garantir, uma produção constante, segundo as habilidades de cada um, para a sobrevivência de uma comunidade auto-gestionada, baseada nas decisões simples de conselhos de trabalhadores, sem um Estado mediador. Segundo Proudhon, cada trabalhador teria direito aos frutos do seu trabalho, sem qualquer tipo de salário ou pagamento, e seria livre para consumi-lo ou trocá-lo. Proudhon contudo foi um dos raros anarquistas a combater as iniciativas feministas da época, reforçando o papel da mulher como mãe e seio da família, uma posição que seria extremamente impopular, de modo geral, com gerações posteriores de anarquistas.

O breve sucesso interno, ainda que logo destruído, das pequenas comunidades auto-organizdas em Paris tornou-se um símbolo que perdura até hoje entre os anarquistas, e foi essa faísca de esperança que teve um impacto gigantesco na expansão dos movimentos anarquistas nas décadas que se seguiram.

A Propaganda pelo Ato

A chamada "Propaganda pelo Ato" foi um princípio, logo convertido em tática, adotado por vários movimentos anarquistas na Europa a partir da década de 1880, e extendendo-se até o final da década de 1920. Essa tática foi interpretada de diversas maneiras pelos vários indivíduos e movimentos que a usaram, mas basicamente consistia numa ação afirmativa que procurasse levar a sociedade na direção do anarquismo, seja de modo pacífico ou violento.

Embora existissem exemplos do primeiro tipo, como as tentativas de construção de comunidades livres de trabalhadores pelo anarco-pacifista alemão Gustav Landauer, a grande maioria das ações de Propaganda pelo Ato eram violentas, geralmente envolvendo o assassinato de monarcas ou outras altas autoridades governamentais, ou o roubo a bancos e subsequente distribuição do dinheiro. Algumas dessas ações tiveram sucesso, como o assassinato da Imperatriz Elisabeth da Áustria, em 1898, do Rei de Portugal e seu herdeiro, em 1908, e do Rei da Grécia, em 1913, ou os roubos do Banco Nacional Espanhol em 1923 e do Hospital Rawson, em Buenos Aires em 1927.

Essas táticas, embora fossem sendo abandonadas gradualmente a partir da década de 1920 em razão da violenta repressão e do pouco impacto que causavam na perspectiva do fim do Estado, tiveram um impacto grande na percepção do anarquismo na sociedade moderna, como uma ideologia essencialmente violenta e anti-social.

A Revolução Espanhola

Outro grande marco da teoria anarquista em prática foi a Guerra Civil Espanhola, a maior insurreição anarquista da história. Como parte da luta contra o fascismo da Falange, em 1936 as regiões da Espanha com maior concentração de trabalhadores filiados à CNT, Confederación Nacional del Trabajo (Catalunha, Aragão, Valência e Andalusia) declararam uma revolução anarquista, onde de 50% a 75% de todos os meios de produção, estabelecimentos comerciais, fábricas e fazendas foram expropriados e passaram a ser controlados por seus próprios trabalhadores, em regime voluntário.

Diversas fontes atestam que, longe de ser um fracasso, a Revolução Espanhola, enquanto durou, aumentou a produtividade em quase todos os setores coletivizados, e todas as decisões eram deliberadas através de conselhos de trabalhadores locais, sem qualquer tipo de burocracia ou mediação. As mulheres foram libertadas de leis opressivas, e podiam exercer qualquer função com direitos iguais aos homens, e tinham direito ao aborto e ao "amor livre", sem vínculo de casamento ou compromisso. Os homossexuais, contudo, eram muito mal-vistos, e mesmo os anarquistas que não os condenavam publicamente evitavam associar-se aos mesmos.

A Revolução Espanhola, no entanto, foi em última instância um fracasso, sobretudo devido ao alinhamento dos comunistas espanhóis com os comunistas russos, cuja política oficial era de combater e esmagar o anarquismo na Espanha, mesmo que isso significasse desviar forças vitais na luta contra os fascistas, o que em último caso possibilitou a vitória de Franco e seus Falangistas.

O Anarquismo Hoje

O Anarquismo continua vivo até os dias de hoje, embora sob uma nova forma. Embora existam ainda entidades anarquistas com uma longa história de luta, como a própria CNT na Espanha, ou as diversas comunidades anarquistas independentes, como Christiania na Dinamarca, hoje em dia a maior parte da movimentação anarquista se dá através dos chamados Black Blocs, presentes inclusives nas manifestações brasileiras.

Black Blocs

Os Black Blocs não são organizações hierarquizadas, não tem planejamento ou lideranças, mas simplesmente buscam avançar a causa anarquista apoiando manifestações populares ou criando suas próprias, e usando táticas de dispersão ou agressão às autoridades. Como o movimento não é unificado, vários grupos que se auto-identificam como Black Blocs praticam todo o tipo de táticas, desde as mais defensivas, visando salvaguardar-se contra a agressão das autoridades, até as mais ofensivas, reminiscentes da "Propaganda pelo Ato", como a vandalização de prédios públicos, e o saque à bancos e lojas.

Bibliografia
  • GUERÍN, Daniel. Anarchism.

Pedro Padovani

História - USP

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